20 de março de 2019

   Ele chegou atrasado, se desculpando e cumprimentando-a.
   - Eu falava de você neste exato momento - disse ela depois de apresentá-lo à amiga.
   - Falava bem ou mal? - perguntou encostando seus lábios no dela.
   - Disse que você é um gentil mancebo.
   Ele sorriu amarelo, vermelho ou qualquer outra cor, chamou o garçom e pediu uma cerveja pensando: "Por que raios ela me chamou de placebo?".
   A conversa entre o trio fluiu, aportaram na mesa mais cervejas e porções calóricas permitidas ao encontro daquela tarde.
   - Vou ao banheiro - disse ele enquanto o garçom buscava a saideira.

Placebo: s.m. Substância neutra que não tem efeitos nos pacientes, geralmente usada para tratar pessoas que não precisam de medicação, mas pensam que precisam.

   Lia ele antes de voltar à mesa.
   - Não faz nenhum sentido isso - resmungou enquanto guardava o celular.
   Nos segundos seguintes enquanto atravessava o bar, fez um contato visual com ela e pensou: "Ok, eu já sabia que ela não era comum".

   A amiga despediu-se repetindo o conselho que já havia dado a outros: "Cuida bem dela!". E foi embora.
   Eles seguiram também e enquanto caminhavam pela calçada ela ouviu:
   - Não entendi porque disse que sou um "gentil placebo" quando eu cheguei.
   Ela parou e se desmanchou em uma gargalhada, encostou-se ao muro e corrigiu:
   - Eu não disse placebo, disse mancebo!
   E continuou:
   - Mas talvez você seja um placebo mesmo, um placebo com cheiro de primavera e beijo de verão. Um fármaco que controla a minha disritmia com carinho, me tira a febre da solitude em dias de chuva e frio, cessa as dores que às vezes emerge do meu coração... Ter a sua companhia é a minha terapia predileta e mesmo eu sabendo que todas as curas da minha alma estão dentro de mim, não me importo que você seja receitado nos meus dias durante o Outono, se estenda até o Inverno e quem sabe por mais estações...
   Ele sorria e a beijava, beijava e sorria.

   - Vamos pedir uma pizza mais tarde?
   - Vamos! Eu levo a cerveja!

   Um beijo selou a despedida para o distanciamento de algumas horas.
   No caminho para casa enquanto a chuva fina caía, ela lembrava que era Equinócio de Outono e sussurrava:
   - As estações estão a meu favor!

24 de fevereiro de 2019

Pedi aos Deuses que me livrem 
do café fraco,
dos abraços frouxos, 
dos beijos sem vontade
e da falta de carinho.
- Mas o que é que você sente?
Sofro de distâncias seu moço, 
sinto saudade!

31 de outubro de 2017

-O que aconteceu homem pra você estar assim tão atordoado?
- Eu sabia! Sabia que não era uma boa ideia eu ter ido lá, alguma coisa estava me avisando... E ela lá com aquela cara de “tanto faz” enquanto balançava na rede, e eu... e eu? Fui embora, oras! E agora como vou fazer para pegar de volta? Como?

Olhava para Emanuela tentando encontrar uma resposta.
- Calma! Onde você foi e o que você perdeu?
- Acaso não sabe? Estive com aquela diaba! Entrei, sentei, vi ela macerar ervas e fazer chá que curava tristeza, vê se pode? Chá que cura tristeza! É uma louca que conversa com a garoa, com as plantas! Não quero voltar lá, mas preciso ter de volta o que é meu!

Emanuela olhava a indignação do amigo enquanto ele balançava os braços, colocava as mãos na cabeça e andava de um lado para outro.
- Bem que mamãe disse pra tomar cuidado com mulher que parece que traz faísca nos olhos, mulher tinhosa, arredia! Mamãe tinha razão e vai querer arrancar meu couro quando descobrir, e eu não volto lá naquela casa onde ela deve morar com todos os tipos de assombrações... Mas como vou fazer para pegar de volta?

- Mas o que é que você tem de tanto valor assim criatura?
Perguntou Emanuela torcendo o nariz para o amigo.
- O que é que eu tenho? Ora, o que é que eu tenho, eu tinha! Um coração que ficou lá nas mãos de mandinga daquela feiticeira! E eu não volto lá viu Emanuela! De jeito nenhum eu vou me enfiar naquele lugar outra vez, não vou ouvir ela sussurrar coisas que a gente não entende do tipo “Quédate conmigo hasta mañana”...
- E o que vai fazer?
- Vou pedir pra dona Matilde que me benza, é isso! Vou pedir um benzimento forte! 

Dizem que ela pode vigiar o nosso sono, que pode entrar no nosso sonho... Ela é ardilosa, mas o pior de tudo é aquele beijo... Aquele arrepio... Aquele sorriso que não me deixava ver mais nada... O cheiro da pele dela misturado com cheiro de canela... Aquilo sim é que é feitiço... E Deus me livre me apaixonar por uma Bruxa!

20 de fevereiro de 2017

   Ela pisou no passado, fez uma rápida visita e teve a certeza que ali não era mais o seu lugar, repousou nas lembranças, não sabia se sorria ou se chorava, juntou tudo o que encontrou, colocou dentro de uma caixa e depositou à beira da estrada...
   A dor maior foi quando ela virou e foi embora, sentindo como se carregasse uma bagagem muito grande, ela não entendia e por isso arrancava a sandália e desabotoava a blusa a fim de se livrar do que a incomodava.
   - Mal sabia ela seu moço, que o peso estava no coração!
   O cansaço nos pés eram das tantas vezes em que ela retornou para quem não a queria, e a blusa que parecia apertada era a enorme paixão que ela trazia no peito e ele não notava...

30 de agosto de 2016

Ressurge Coré, no corpo de Perséfone,
sai do infinito do seu submundo
retorna que é tempo de florir o desejo.
Renasce, retoma o campo do seu corpo e dos seus pensamentos
Setembrou minh´alma, já foi dada a permissão
Ora, seu Moço
você já pode Primaverar o meu coração...

14 de abril de 2016

Eu pedi a conta seu moço, reclamei da minha falta de tempo e dos poucos abraços, eu não via na via onde eu caminhava nem aperto e nem espaço, não sei se variei das moléstias do coração, dessas febres da paixão, ainda não sei se foi a tempestade da cidade que ventou a solidão, teve uma hora que nada mais restou, ecoou minhas lembranças lá pras bandas da saudade e ficou, eu só virei as costas e deixei, nem sei o que restou...

Ora, seu moço, não fique com pena não, eu paguei a conta, não devo mais nada para aqueles lados e já ando arrumando por aqui mesmo os meus novos pecados...

3 de agosto de 2015

O que foi?

Quanto eu já tive de entender e de aceitar.
A dor foi maior em mim ou em você? Quem sabe...quem ousaria responder...
Ferve uma água e faz um chá, um café ou deixa ela fazendo barulho, igual ao sentimento fervendo, cabeça sem entender, coração descompassado.
 Quem é o culpado? Foi a história mal explicada? Os segredos talvez? Quem sabe foi a sua cara amassada numa manhã de sábado feliz. Foi a felicidade que atrapalhou? Foi a chuva? O frio? Foi o gelo do coração ou o calor da alma? Foi a luz da Lua que atrapalhou a sua escuridão? Foi a lembrança que atrapalhou o raciocínio? Foi o egoísmo? Ou foi tudo que se dividiu? Foi o abrigo do abraço? Foi o cansaço de esperar passar a gripe? Foi a sopa que encontrou o estômago vazio e aqueceu o coração? Foi o vinho que balançou a ideia e molhou os lábios? Foi a gota do chuveiro quente ou da situação esgotada? Sabe o que é não viver um amor? Sabe o que é a dor da falta? Mas me diga, essa raiva aí é amor ou é só a saudade e mais nada?
...é só um silêncio, isso não quer dizer porta trancada é uma maneira que às vezes se acha de guardar o sentimento que é muito grande. Sabe esse amor que ultrapassa?
É só um jeito seu moço de tentar ajeitar dentro do coração a saudade junto com a pessoa amada!