31 de outubro de 2017

-O que aconteceu homem pra você estar assim tão atordoado?
- Eu sabia! Sabia que não era uma boa ideia eu ter ido lá, alguma coisa estava me avisando... E ela lá com aquela cara de “tanto faz” enquanto balançava na rede, e eu... e eu? Fui embora, oras! E agora como vou fazer para pegar de volta? Como?

Olhava para Emanuela tentando encontrar uma resposta.
- Calma! Onde você foi e o que você perdeu?
- Acaso não sabe? Estive com aquela diaba! Entrei, sentei, vi ela macerar ervas e fazer chá que curava tristeza, vê se pode? Chá que cura tristeza! É uma louca que conversa com a garoa, com as plantas! Não quero voltar lá, mas preciso ter de volta o que é meu!

Emanuela olhava a indignação do amigo enquanto ele balançava os braços, colocava as mãos na cabeça e andava de um lado para outro.
- Bem que mamãe disse pra tomar cuidado com mulher que parece que traz faísca nos olhos, mulher tinhosa, arredia! Mamãe tinha razão e vai querer arrancar meu couro quando descobrir, e eu não volto lá naquela casa onde ela deve morar com todos os tipos de assombrações... Mas como vou fazer para pegar de volta?

- Mas o que é que você tem de tanto valor assim criatura?
Perguntou Emanuela torcendo o nariz para o amigo.
- O que é que eu tenho? Ora, o que é que eu tenho, eu tinha! Um coração que ficou lá nas mãos de mandinga daquela feiticeira! E eu não volto lá viu Emanuela! De jeito nenhum eu vou me enfiar naquele lugar outra vez, não vou ouvir ela sussurrar coisas que a gente não entende do tipo “Quédate conmigo hasta mañana”...
- E o que vai fazer?
- Vou pedir pra dona Matilde que me benza, é isso! Vou pedir um benzimento forte! 

Dizem que ela pode vigiar o nosso sono, que pode entrar no nosso sonho... Ela é ardilosa, mas o pior de tudo é aquele beijo... Aquele arrepio... Aquele sorriso que não me deixava ver mais nada... O cheiro da pele dela misturado com cheiro de canela... Aquilo sim é que é feitiço... E Deus me livre me apaixonar por uma Bruxa!

20 de fevereiro de 2017

   Ela pisou no passado, fez uma rápida visita e teve a certeza que ali não era mais o seu lugar, repousou nas lembranças, não sabia se sorria ou se chorava, juntou tudo o que encontrou, colocou dentro de uma caixa e depositou à beira da estrada...
   A dor maior foi quando ela virou e foi embora, sentindo como se carregasse uma bagagem muito grande, ela não entendia e por isso arrancava a sandália e desabotoava a blusa a fim de se livrar do que a incomodava.
   - Mal sabia ela seu moço, que o peso estava no coração!
   O cansaço nos pés eram das tantas vezes em que ela retornou para quem não a queria, e a blusa que parecia apertada era a enorme paixão que ela trazia no peito e ele não notava...